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PROFISSÃO

As caretas da crise

Sim, os operadores do pregão são estressados e estão no olho do furacão. Mas a expressão exagerada deles nem sempre reflete o mundo real

 

Por Maria Paola de Salvo, Filipe Vilicic e Fernando Cassaro

15.10.2008

 

Fotos Mauricio Lima/AFP

Operadores da bolsa no último mês: muitas vezes com um olho nos painéis eletrônicos e outro nas lentes dos fotógrafos

Quem vê a expressão tensa dos operadores da bolsa nas fotos estampadas nos jornais imagina que o que está em jogo é a vida deles ou sua fortuna pessoal. Não é exatamente assim. Apesar da cara de soldados em combate, são raros os operadores que aplicam o próprio dinheiro. Em geral, eles executam ordens, contabilizando lucros ou perdas para os clientes da corretora para a qual trabalham. Ganham salário fixo, que varia de 1 700 a 15 000 reais – a média é de 2 500 reais.–, e em minutos são capazes de demonstrar emoções tão diversas quanto apatia e euforia. A crise global que eclodiu no último dia 15 de setembro, quando um dos mais tradicionais bancos de investimento de Wall Street, o Lehman Brothers, foi a pique, vem produzindo um festival de caretas. "Alguns operadores, quando nos vêem, começam a fazer caras e bocas. Há até umas figurinhas manjadas", diz Eduardo Knapp, fotógrafo da Folha de S.Paulo, que cobre o mercado financeiro desde 1993. Existe, inclusive, um aquário de vidro acima do pregão destinado aos fotógrafos. Diante das sucessivas quedas no índice Bovespa, sobraram unhas roídas, berros, cabelos arrancados e tremedeira nos pregões. Houve três picos de nervosismo, quando as negociações tiveram de ser suspensas – uma vez no dia 29 de setembro e outras duas em 6 de outubro. Chamado de circuit breaker, o mecanismo interrompe as operações sempre que a bolsa apresenta uma queda de 10%. Uma paralisação desse tipo havia ocorrido pela última vez em janeiro de 1999, durante a crise da Rússia.

Desde 2005, a Bovespa opera de forma totalmente eletrônica, com computadores. Os funcionários que são clicados se descabelando atuam hoje apenas no prédio da antiga BM&F – em maio, a empresa se uniu à Bovespa formando a BM&FBovespa. Pelas potentes cordas vocais dos cerca de 300 operadores chegam a circular mais de 7 bilhões de reais por dia. Mas mesmo esses são em menor número que no passado. Em 2003, eram 1.200. "Os computadores tiraram o emprego de muita gente", afirma o presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Mercado de Capitais, Marcio André Mieza. Os que sobraram falam alto, encenam e conversam numa espécie de linguagem de sinais. Usam 24 tipos de gesto com as mãos para comunicar compra e venda. E berram muito. Acima de 95 decibéis, o equivalente ao som de um helicóptero pousando. A seguir, histórias de quem já atuou ou continua atuando nesse palco que, mais do que nunca, atrai as atenções dos brasileiros.

 

O potente gogó do "Tremedeira"

Pablo Whitaker/Reuters

Apesar de Fernando Petrillo estar há dez anos no frenético mundo onde quem corre mais rápido e grita mais alto consegue os melhores resultados, suas mãos ainda tremem quando ele fica nervoso. E isso acontece a toda hora. Petrillo ganhou o apelido de "Tremedeira" em 1997, quando entrou na antiga BM&F, que hoje faz parte da BM&FBovespa, como auxiliar de operador. Tornou-se operador de viva-voz (a pessoa que faz as negociações em nome de uma empresa no pregão) dois anos depois. Aos 33, formado em comércio exterior, corre 10 quilômetros pela manhã e malha durante quarenta minutos no almoço para liberar as tensões. Antes de entrar no pregão, prepara a voz com exercícios que aprendeu durante um ano em sessões de fonoaudiologia. "Se não sou ouvido, perco negócios de milhões. Então, o jeito é gritar."

 

Cara de pit bull e 10 000 reais no fim do mês

Mauricio Lima/AFP

Por baixo da seriedade da camisa e gravata do operador José Luiz de Moura escapam algumas tatuagens coloridas. "Tenho 32 delas e farei mais uma", diz. Elas denunciam o motociclista no qual ele se transforma no fim de semana. "Circulo por aí para aliviar o stress do pregão", afirma o operador, que passou 24 de seus 42 anos gritando e gesticulando no 3º subsolo da BM&F. Conhecido como Roy pela cabeleira no estilo do vocalista do grupo Menudo que costumava exibir no passado, Moura nunca trabalhou tanto como agora, com a reviravolta global. "É a pior crise que já vivi. O mercado e os clientes estão muito nervosos e acaba sobrando para a gente", diz ele, que recebe 10 000 reais por mês.

 

"Neste momento estava sendo xingado pelo chefe"

Mauricio Lima/AFP

Operador há trinta anos, Humberto Canata caiu em desespero no último dia 18 de março diante dos números do painel. A instabilidade do mercado refletia o início da crise de crédito americana, que hoje assola o mundo. "Naquela hora, tinha acabado de perder uma negociação e ouvi vários xingos do chefe", conta ele. "Agressão verbal do outro lado da linha sempre rola." Isso porque o melhor negócio é sempre disputado no corpo-a-corpo. "Já rasgaram várias vezes minha gravata e camisa", afirma Canata, desempregado há dois meses. Daquela época, herdou uma hérnia de disco e problemas de vista, além de um trauma de telefone. "Eu me arrepio quando ouço o toque."

 

Aposentadoria depois de cansar de roer as unhas

Evelson de Freitas/Folha Imagem

Pedro Carlos Campos entrou na bolsa aos 13 anos, como office-boy. Desde então se passaram 38. Em meados dos anos 70 virou operador, foi funcionário de quatro grupos de investimento, passou pela Bovespa, pela BM&F e abandonou a profissão em outubro do ano passado. A foto de 2001 o mostra roendo as unhas, algo que fazia quando estava nervoso. "Negociar milhões em um dia é muita pressão, voltava estressado para casa", conta. "Agora, sosseguei e curto a aposentadoria na praia." Para garantir um bom pé-de-meia, colocou parte de seu dinheiro em um fundo de investimento. "Decidi não aplicar diretamente em ações porque sei como é arriscado."

 

"Fiquei mais arrasado do que quando meu pai morreu"

Eduardo Nicolau/AE

No fim de seu expediente como operador em 30 de setembro de 2005, Arlindo Augusto Ikemoto, 41 anos, tirou o telefone do ouvido, soltou a gravata e chorou. "Foi o dia mais triste da minha vida, fiquei mais arrasado do que quando meu pai morreu", diz. Era o último pregão viva-voz com funcionários da Bovespa, que desde então só opera por computadores. Tempos depois, teve de migrar para a BM&F, onde trabalhou até 2007. "Sempre gostei da minha profissão, mesmo com stress", afirma ele, hoje desempregado. Os 23 anos que passou em meio a gritaria, pressão e números o mandaram para o consultório de um terapeuta. "Às vezes tremia ao descer as escadas do prédio para mais um dia de trabalho."

Veja o infográfico

> Quem é quem no pregão


 
 
 
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