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Parafraseando Paulo Coelho, o universo conspira contra minha agenda. Basta estar com pressa para, caso me encontre em uma fila, a bobina do caixa acabar. A mocinha faz a troca lentamente. Erra umas duas vezes. Quando parece terminar, surge algum problema. Vem o superior. Mexe um pouquinho. Olha para mim, sorri e avisa:
– Só um instante.
Digita sua senha. Não entra. Digita de novo. Resolve. Passo os produtos. Sempre há um cujo preço não aparece. Sempre. A mocinha aperta um botão. Começo a grunhir. Um rapaz de patins aterrissa à nossa frente. Desaparece com o produto dentro do supermercado.
– Mais um instante – diz a mocinha.
Séculos depois, o rapaz retorna. Quando estou para terminar a compra, a caixa do lado faz uma pergunta. A minha pára tudo para responder. E eu espero, espero, espero...
E no banco? Quando vou buscar dinheiro ou resolver uma pendência importante, cai o sistema. Não é paranóia. Intuo que o sistema tem alguma coisa contra mim. Aguardo. Pior é se dá vontade de fazer xixi. Caso eu cometa tal imprudência, o sistema volta enquanto estou no toalete. Quem está na fila resolve a vida. Assim que volto, cai de novo!
Já nem tento ir a restaurante badalado. Posso chegar o mais cedo possível. Invariavelmente, o maître avisa, desconsolado:
– Acabamos de sentar a última mesa. E vai demorar um pouco, porque todo mundo está começando a jantar!
Dia desses fui ao Rio de Janeiro. Comprei passagem pela internet. Cheguei ao aeroporto e fiz o check-in em uma maquininha. Tudo rápido. Mas precisava despachar minha maleta de mão. Uma mocinha da companhia aérea me indicou a fila preferencial de vips, idosos, deficientes etc.
– É coisa simples, vá aí mesmo – convidou.
Só havia um trio de executivos no guichê. Quando eu ia chegando, uma senhora grávida entrou na minha frente. Com todo o direito. Mas havia só um rapaz atendendo, e os três senhores não paravam de falar. (É outro mistério que não entendo, o das companhias aéreas: por que os passageiros realizam debates no check-in?) Quinze minutos depois, o guichê ficou livre. Foi a vez da senhora grávida, é claro. Mais dez minutos, aproximando-se minha vez, um rapaz atravessou na minha frente conduzindo uma senhora cega. Nada mais justo. Meu vôo foi chamado.
– O avião vai decolar e tenho de despachar a mala – bradei para um funcionário que passava.
Ele me passou na frente de uma fila imensa. Des-pachei, com os olhares dos outros passageiros cravados nas minhas costas. Ouvi um murmúrio:
– Olha o fura-fila!
Corri até o portão de embarque. O vôo havia sido remanejado para o outro extremo do aeroporto. Voei, como sempre. Se eu fosse ao Rio todo dia, poderia competir na São Silvestre de tanto treinar em Congonhas. (Trata-se do mistério dos aeroportos: distâncias internas, filas e remanejamentos são outros temas a desvendar.)
A lista dos mistérios não terminaria nunca. Será que é só comigo? Ou em alguns dias a bruxa fica solta na cidade?