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DINHEIRO

Crédito: mais tempo para pagar

07.11.2007

Antes malvisto pelos bancos, o empréstimo imobiliário
tornou-se fundamental na briga por clientes. Quem
ganha com isso é o comprador

 

Por Cláudio Gradilone

A notícia mais importante do sistema financeiro nos últimos anos é: os bancos querem seduzir os clientes emprestando dinheiro para que eles comprem um imóvel novo. Há poucos anos, a melhor maneira de azedar o humor do gerente era começar uma conversa com as palavras "casa própria". O único crédito disponível era aquele obrigatório, com os recursos da caderneta de poupança, invariavelmente concedido de má vontade. Hoje tudo é diferente. A tática dos bancos é oferecer prazos de financiamento cada vez mais longos (de até trinta anos) e segurança (prestações fixas). Algumas instituições financeiras trabalham com produtos que até agora só estavam disponíveis para americanos e europeus, como empréstimos garantidos pelo imóvel que o cliente já possui. Atualmente, há promotores de vendas oferecendo crédito imobiliário em shopping centers nos fins de semana e feriados. Isso seria impensável tempos atrás.

"Os bancos perceberam que para ganhar dinheiro no varejo de forma sustentável têm de manter o cliente por longos períodos e vender-lhe muitos produtos", afirma Antonio Bento Mendonça Neto, vice-presidente responsável por finanças da consultoria internacional Solving. "Nada é mais eficaz na hora de conquistar e manter um cliente do que financiar sua casa própria." Segundo dados do Banco Central, o total de empréstimos direcionados ao setor habitacional chegou a 40 bilhões de reais em setembro, o maior nível em seis anos. Entre janeiro e setembro de 2007, o volume de novos empréstimos imobiliários cresceu para 12 bilhões de reais, um avanço de mais de 81% em relação aos nove primeiros meses de 2006. "O crédito imobiliário voltou a ser uma das alavancas do crescimento econômico", diz Décio Tenerello, presidente da Associação Brasileira das Associações de Poupança e Empréstimo (Abecip). "Só o dinheiro das cadernetas de poupança deve financiar 180 000 imóveis neste ano, o maior número desde o fim da década de 80." De acordo com Tenerello, as estimativas são de que o volume de novos empréstimos supere 16 bilhões de reais em 2007.

O ritmo de crescimento será ainda mais acelerado no ano que vem, quando entram em vigor as novas normas de financiamento com recursos do fundo de garantia do tempo de serviço (FGTS). Até dezembro, os empréstimos do FGTS estarão restritos aos trabalhadores com carteira assinada que têm renda máxima mensal de 4 900 reais. Essa restrição cai a partir de 2008. Quem ganha mais do que isso poderá pleitear um empréstimo barato: os juros serão de 8,7% ao ano, mais a variação da taxa referencial (TR), que desde 2003 não superou 3% ao ano. Na ponta do lápis, será um empréstimo de cerca de 12% ao ano, taxa considerada baixa. As outras restrições do FGTS vão continuar: só pode usá-lo quem tem carteira assinada e não possui nenhum imóvel ou financiamento imobiliário. Outra mudança é a do valor máximo do imóvel, que passa de 130 000 para 350 000 reais (com um limite de financiamento de 245 000 reais). As estimativas do Conselho Curador do FGTS são de que essa medida injete mais 1 bilhão de reais no financiamento imobiliário em 2008.

Quem encontrou a casa dos seus sonhos e precisa de dinheiro emprestado para financiá-la deve tomar alguns cuidados. Antes de mais nada, é preciso pesquisar preços e fazer contas, comparando todas as despesas. Além dos juros nominalmente baixos, outros custos, como seguros, despachante e papelada, tornam as taxas um pouco mais salgadas. Depois da pesquisa, os especialistas recomendam tomar uma generosa dose de cautela. Um financiamento de trinta anos significa muito tempo para que imprevistos aconteçam – uma doença, um acidente ou um aparentemente interminável período de desemprego podem comprometer os planos. Por isso, a regra de ouro é que o valor da prestação seja de, no máximo, 80% do que o comprador pode se dispor a pagar. A diferença vai para um fundo de reserva. Isso minimiza o risco de inadimplência.


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